05:28 15-01-2026
Schmidt Sciences lança 4 telescópios, um rival do Hubble
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Schmidt Sciences financia quatro telescópios: Lazurite, Argus, D.S.A. e LFAST, para acelerar descobertas; um rivaliza com o Hubble. Em até quatro anos.
O ex-CEO do Google, Eric Schmidt, e sua esposa, Wendy, estão levando o manual do Vale do Silício para um campo acostumado a cronogramas de décadas e muita burocracia. Pela via filantrópica da Schmidt Sciences, eles financiam quatro telescópios de grande porte — incluindo um instrumento orbital pensado para rivalizar com o Hubble, da NASA.
A lógica é direta: apoiar-se em tecnologia já comprovada e estruturar projetos para decolar rápido, operando em ciclos delimitados e “experimentais”, sem a pretensão de atravessar gerações.
Quatro telescópios em quatro anos
A Schmidt Sciences pretende ter os quatro observatórios em operação em até quatro anos. Para os padrões da astronomia, é um ritmo que beira o sprint; instalações desse porte costumam levar décadas.
Arpita Roy, responsável por astrofísica e espaço na Schmidt Sciences, afirmou no encontro da American Astronomical Society, em Phoenix, que o programa é um experimento para acelerar descobertas. Ela reconheceu que a equipe aceita um risco maior — frisando que é calculado e, na visão deles, justificável.
Por que apostar em tecnologia pronta
Todos os projetos compartilham um fio condutor pragmático: nada de reinventar o que já funciona; a ideia é reaproveitar e reprogramar. Isso vale especialmente para chips de alto desempenho que impulsionaram os avanços recentes em inteligência artificial.
Por anos, a Schmidt Sciences bancou pesquisa inicial, desenvolvimento tecnológico e prototipagem a portas fechadas. Agora, o esboço veio a público: as universidades que vão operar os telescópios terrestres foram definidas, e a fabricação de componentes começou. O presidente, Stuart Feldman, disse que os testes deixaram a equipe confiante de que as peças-chave estão sólidas.
O que inclui o Sistema de Observatórios Eric e Wendy Schmidt
Os quatro esforços reúnem-se sob um único guarda-chuva — o Sistema de Observatórios Eric e Wendy Schmidt. Ele inclui:
- O telescópio espacial “Lazurite” — um observatório orbital concebido como rival de classe Hubble.
- “Argus” — um sistema que vai registrar continuamente todo o céu noturno do Hemisfério Norte.
- Deep Synoptic Array (D.S.A.) — um instrumento de varredura em rádio projetado para escanear as frequências cósmicas 24 horas por dia.
- LFAST — um grande telescópio espectroscópico por fibra óptica, feito para capturar a “cor” da luz de objetos distantes.
Como a abordagem dos Schmidts difere da big science tradicional
O investimento federal sustenta a ciência dos EUA há décadas, e a astronomia também se apoia na filantropia privada. Vem à memória Percival Lowell, que financiou o Observatório Lowell, no Arizona, na esperança de encontrar indícios de vida em Marte.
O modelo da Schmidt Sciences lembra mais a lógica de startups: mais rápido, mais barato e com metas e cronogramas bem recortados. Esses observatórios não buscam ser monumentos de várias décadas, e sim ferramentas “por alguns anos”, substituídas por novas gerações à medida que a tecnologia avança. A equipe sustenta que, no longo prazo, isso pode sair mais em conta do que a abordagem clássica.
Roy acrescentou que experimentos desse tipo devem ter duração limitada — hoje imaginada entre três e cinco anos — e, depois, dar lugar a novos projetos.
Como isso se encaixa na incerteza atual de financiamento
Representantes da Schmidt Sciences reconheceram que o último ano trouxe incertezas à pesquisa, diante das tentativas do governo Trump de impor cortes profundos à NASA e à National Science Foundation. Eles sublinharam que suas iniciativas não pretendem substituir programas governamentais.
Feldman destacou que NASA e NSF brilham em missões e instrumentos de 10 a 20 anos; não faz sentido competir com isso. Já a Schmidt Sciences consegue tomar decisões binárias de financiamento e se mover rápido — e é isso que acelera o lançamento.
Os Schmidts não divulgam orçamentos exatos. Sabe-se que o Lazurite é estimado na casa das centenas de milhões de dólares, e os instrumentos terrestres também exigem investimentos significativos.
Lazurite: ambições que esbarraram na Starship
O telescópio orbital é a peça mais visível e tecnicamente exigente. Feldman disse que seu espelho será um pouco maior que o do Hubble.
O plano original era mais ousado: chegou a ser fabricado um espelho primário de 20 pés — mais que o dobro do Hubble. Como o espelho é monolítico, apenas um foguete poderia carregá-lo: a Starship, da empresa de Elon Musk.
Com a Starship enfrentando contratempos e atrasos em relação aos prazos anunciados, a Schmidt Sciences ajustou a rota no outono de 2024. Feldman indicou que a opção do espelho maior pode ser retomada quando houver mais clareza sobre o lançador.
Por que o Lazurite importa para a energia escura
O Lazurite nasceu de conversas entre Feldman e o astrofísico de Berkeley Perlmutter, laureado com o Nobel de Física de 2011 pela descoberta da expansão acelerada do Universo.
O telescópio foi projetado para medir com mais precisão a cor de anãs brancas em explosão. O desvio para o vermelho revela a velocidade com que galáxias distantes se afastam. Observações posteriores sugeriram que as anãs brancas nem sempre são uniformes, e a própria natureza da energia escura pode ter mudado ao longo do tempo. O Lazurite pretende entregar dados novos para testar se há física nova em jogo.
Em suas observações, Perlmutter enfatizou, em essência, que medições desse tipo refinariam a compreensão e ajudariam a avaliar se estamos diante de um fenômeno realmente novo.
Giros mais rápidos e timing melhor
Outro diferencial do Lazurite é a capacidade de girar no espaço mais rápido que o Hubble ou o James Webb, permitindo medições rápidas de supernovas recém-descobertas justamente no pico de brilho.
O telescópio também vai investigar exoplanetas com um coronógrafo, que bloqueia a luz da estrela para revelar o planeta ao lado.
Argus: não um gigante, mas 1.200 pequenos telescópios
Se o segmento espacial soa familiar, os instrumentos em solo flertam com o radical.
O Argus Array se parece com o Observatório Vera Rubin em propósito — varrer o céu —, mas o Rubin é uma instalação única de 8,4 metros no Chile, dedicada ao Hemisfério Sul, enquanto o Argus é um mosaico de 1.200 pequenos telescópios, cada um com espelho de 28 centímetros.
O professor Nicholas Low, da Universidade da Carolina do Norte, que supervisiona o projeto, disse que o sistema mira problemas diferentes. Telescópios pequenos são menos indicados para objetos rápidos, como asteroides, e não foram feitos para os alvos mais tênues e distantes. O que eles podem fazer é varrer o céu inteiro em poucos minutos.
Estrutura simples, sem cúpula
Os 1.200 telescópios ficarão em oito montagens circulares que se movem em uníssono. Não haverá cúpula tradicional; o complexo lembrará um galpão com mansardas — uma construção mais simples e barata.
Quase uma máquina do tempo para astrônomos
Como o Argus observará continuamente e manterá uma semana de dados, poderá responder a alertas de outros instrumentos. Se o LIGO, por exemplo, detectar ondas gravitacionais de uma fusão de buracos negros, o Argus poderá verificar se há um contraparte visível.
Low comparou isso a uma máquina do tempo, ao dizer que os pesquisadores poderão “rebobinar” o arquivo para buscar precursores anteriores ao alerta dos detectores gravitacionais.
O local ainda não foi anunciado, embora Low tenha apontado o Texas como provável. A primeira luz é esperada para 2027. O projeto também conta com cofinanciamento de Alex Gerko, ao lado da Schmidt Sciences.
D.S.A.: um mapa de rádio do Universo em novas escalas
O Deep Synoptic Array segue a mesma filosofia: muitos elementos modestos atuando como um único instrumento.
O conjunto vai mapear o céu em rádio, com 1.650 antenas parabólicas, cada uma de 20 pés de diâmetro, distribuídas por 60.000 acres em Nevada.
O professor Gregg Hallinan, do Caltech, que vai construir e operar o D.S.A., argumentou que nada existente ou planejado se iguala a ele. Para dimensionar a escala, ele observou que todos os radiotelescópios do século passado, somados, encontraram cerca de 10 milhões de fontes de rádio, enquanto o D.S.A. deve dobrar esse número no primeiro dia.
Ao longo de cinco anos de levantamento, a expectativa é chegar a um bilhão de fontes de rádio. A construção pode começar já no próximo ano.
LFAST: espectros, não imagens
O LFAST também se apoia em múltiplos telescópios ópticos, mas seu foco são os espectros — a “assinatura de cor” detalhada de um alvo. Espectros são essenciais para decifrar fenômenos fugazes, como supernovas, e para analisar atmosferas de exoplanetas.
Espectroscopia, no entanto, consome tempo: é preciso coletar muitos fótons, já que a dispersão da luz essencialmente a espalha. O líder do projeto, Chad Bender, da Universidade do Arizona, afirmou que os astrônomos querem muito mais espectros do que as horas de observação disponíveis hoje conseguem fornecer.
Como muitos telescópios pequenos custam menos do que um gigante, a equipe espera entregar o volume necessário de dados espectrais por um preço mais baixo. Um protótipo está sendo construído no Arizona, e o projeto pode ser ajustado e escalado após os testes.
Como a comunidade está reagindo
Cerca de 150 pessoas assistiram à apresentação em Phoenix, com mais público online. A atmosfera sugeria que os astrônomos se interessaram pelo novo modo de operar: mais rápido, mais simples e ancorado em outra lógica organizacional.
Heidi Hammel, da Association of Universities for Research in Astronomy, disse ver com bons olhos a Schmidt Sciences tentar caminhos novos, embora tenha ponderado que só a prática dirá. Caso o esforço crie novos paradigmas de trabalho, ela sugeriu, isso já seria um resultado relevante.
Ao mesmo tempo, ela apontou limites: esses telescópios não vão superar os programas mais ambiciosos, como o James Webb ou o planejado observatório “Living Worlds”. O valor, acrescentou, está em outro lugar — em oferecer ferramentas alternativas para questões científicas específicas e bem recortadas.