19:47 17-12-2025

Tempo de tela e saúde mental: o que a ciência diz

Entenda como o tempo de tela impacta a saúde mental. Meta‑análises mostram efeitos modestos em média, com riscos concentrados no uso problemático, para poucos.

Muitos de nós nos repreendemos por aqueles minutos extras no celular e nos perguntamos se o rolar infinito faz mal à cabeça e ao corpo. A literatura é vasta — centenas de milhares de trabalhos relacionam tempo de tela a depressão, ansiedade, sono ruim, obesidade, diabetes e até risco de suicídio. É inquietante, mas a pergunta central fica logo abaixo da superfície: o que vem primeiro — a tela ou problemas que já existiam?

A maioria desses estudos capta correlação, não causa. Para se aproximar mais da realidade, pesquisadores recorrem a grandes meta-análises que reúnem dados de alta qualidade. É aí que o panorama começa a perder o tom alarmista e a ficar mais sóbrio.

O que mostram as grandes meta-análises

Um dos esforços mais marcantes, de 2019, assinado por Amy Orben e Andrew Przybylski, vasculhou um enorme conjunto de questionários com adolescentes. Ao comparar a influência de mais de 20 mil fatores, eles concluíram que o tempo de tela respondia por apenas 0,4% da variação no bem-estar dos jovens — um efeito equivalente ao de comer batatas. O paralelo, por si só, já diz muito sobre a escala do impacto médio.

Em contraste, sofrer bullying dos pares teve um impacto negativo mais de quatro vezes maior, enquanto dormir o suficiente e tomar um café da manhã decente renderam ganhos muito mais visíveis. Não é um detalhe: escolhas e contextos cotidianos pesam mais do que o relógio na frente do ecrã.

Em conjunto, os dados sugerem que, em média, a influência das telas é modesta — para o bem e para o mal. Na prática, isso pede menos pânico e mais nuance.

Por que é tão complicado

Mesmo esses resultados continuam sendo correlações. A vida real é confusa, e estabelecer causa e efeito com clareza é difícil. A própria ideia de “tempo de tela” adiciona outra camada de confusão — um guarda-chuva amplo demais para conclusões rápidas.

Sob um único rótulo cabem televisão, redes sociais, videogames, e‑books e muito mais — e há pouca razão para supor que funcionem do mesmo jeito. Muitos estudos apenas somam horas diante de uma tela, frequentemente baseados em autorrelatos, o que reduz a precisão.

Mesmo dentro das redes sociais, as experiências divergem: discussões políticas de madrugada e conversas amistosas dificilmente têm o mesmo efeito. Uma meta‑análise de 2024 na SSM – Mental Health apontou pequenas correlações positivas quando as plataformas são usadas para comunicação ou para manter redes amplas online, e pequenas correlações negativas quando o uso gira em torno de comparação social ou do que os pesquisadores descrevem como uso problemático — algo próximo de uma dependência.

O que fazer com essas constatações

Temores com a saúde das crianças levam governos — entre eles, Reino Unido e Austrália — a impor tetos de tempo de tela e até proibições parciais de certas tecnologias. Só que cautela em excesso também pode significar perder acesso a informação oportuna, conexão, entretenimento e mais. Medidas amplas demais, por melhor-intencionadas que sejam, podem desperdiçar o que as telas têm de útil.

Extraindo o recado mais claro da pesquisa, o quadro fica assim: para a maioria, as telas têm um impacto pequeno, enquanto os riscos reais se concentram em grupos propensos ao uso excessivo ou problemático. São esses os casos que merecem investigação mais profunda e apoio sob medida.

Então, vale se preocupar com o tempo de tela? A resposta tem camadas. Se os dispositivos começam a invadir a rotina, faz sentido reajustar hábitos ou conversar com um profissional. Para a maioria, porém, o tempo de tela está longe de ser o principal fator de risco — apesar das manchetes alarmadas.