17:26 09-12-2025
Mar Negro: o enigma mortal do sulfeto de hidrogênio
© Ratnikov S.S.
Descubra por que 90% do Mar Negro é anóxico: como se formou a camada de sulfeto de hidrogênio, os riscos, o episódio de 1927 e como reduzir a poluição.
Todo verão, a costa do Mar Negro reencontra seu ritmo de férias: praias lotadas, calçadões cheios de vozes, vendedores que passam com milho e doces. Ali, diante da orla em festa, é difícil lembrar o que existe para além do horizonte.
Por trás desse cenário tranquilo, esconde-se um sistema sem paralelo nos oceanos do mundo. Uma fatia enorme do mar — cerca de 90% do seu volume — não tem oxigênio. Nas profundezas, onde a vida não resiste, acumula-se sulfeto de hidrogênio. Fala-se de quantidades medidas em bilhões de toneladas.
Pesquisadores descrevem essa zona como uma das características naturais mais singulares — e inquietantes — da região, um lembrete de que a beleza na superfície pode ocultar realidades bem mais complexas.
Quando o mar era um lago
Há cerca de 7.000 anos, o Mar Negro era um lago de água doce. O nível era muito mais baixo, e comunidades antigas viviam às suas margens. Com o derretimento das geleiras e a elevação global dos mares, o Mediterrâneo rompeu uma barreira natural e a água salgada passou a invadir o lago pelo Bósforo.
A subida foi rápida — geólogos estimam taxas de até 15 centímetros por dia. Organismos de água doce morreram e afundaram. Ao se decompor num ambiente sem oxigênio, prepararam o terreno para a zona de sulfeto de hidrogênio que existe hoje. Alguns historiadores chegaram a associar aquela transformação dramática à narrativa bíblica do dilúvio.
Dois mares em um
A estrutura do Mar Negro não encontra paralelo. A camada superior — até algo entre 150 e 200 metros — é rica em oxigênio e abriga peixes, águas-vivas e plâncton. Abaixo dela começa outro reino: mais salgado, mais frio e sem oxigênio. Ali, só bactérias sobrevivem, degradando matéria orgânica e produzindo sulfeto de hidrogênio. A fronteira entre as camadas, a quimioclina, é tão abrupta que parece uma linha traçada entre o que vive e o que já não pode viver.
Por que as camadas não se misturam
A densidade é a chave. A água do fundo, mais pesada e salgada, permanece onde está, enquanto a camada superficial, mais fresca, fica por cima. A geografia reforça essa divisão. O mar se conecta ao oceano pelo raso estreito do Bósforo, com cerca de 27 metros de profundidade. Para uma bacia desse tamanho, esse gargalo não permite a troca completa de massas d’água. Oceanógrafos calculam que levaria vários séculos para a água da superfície alcançar o leito marinho.
Bactérias que erguem uma camada perigosa
Apenas bactérias redutoras de sulfato conseguem viver nas profundezas. Elas extraem energia dos sulfatos e liberam sulfeto de hidrogênio — o gás do odor acre, lembrado por ovo podre. Sua abundância é enorme, chegando a um milhão de células por mililitro de água. O processo não cessa, e a zona de sulfeto de hidrogênio continua a se expandir.
Por que o sulfeto de hidrogênio é perigoso
O sulfeto de hidrogênio é altamente tóxico e atua de forma rápida. Em concentrações elevadas, pode provocar paralisia respiratória. Mesmo pequenas doses irritam, causam dor de cabeça e reduzem a sensibilidade ao cheiro — um efeito traiçoeiro que torna o gás particularmente perigoso. A história registra liberações trágicas desse tipo de gás, inclusive de origem natural.
Quando o mar pegou fogo
O exemplo mais marcante veio em 1927. Após o terremoto na Crimeia, moradores da costa relataram colunas de fogo sobre a água. Cientistas explicam o fenômeno como uma liberação de sulfeto de hidrogênio que chegou à superfície e reagiu com o oxigênio; o metano provavelmente subiu junto, intensificando o efeito. Foi um episódio local, mas deixou evidente o quão frágil pode ser o equilíbrio do mar.
A fronteira do sulfeto de hidrogênio está subindo
Estudos das últimas décadas apontam um padrão preocupante: a zona morta está subindo. A camada superior, oxigenada, encolhe à medida que os rios levam poluição para o mar. Nutrientes em excesso alimentam florações de algas. Ao morrer, mais matéria orgânica afunda, alimentando bactérias e ampliando a produção de sulfeto de hidrogênio. Mudanças no clima também entram nessa conta, reforçando a estabilidade das camadas e enfraquecendo a mistura vertical. Essa subida lenta da fronteira soa menos como curiosidade e mais como aviso.
Vida só no topo
Por conta dessa estrutura, a fauna do mar é mais pobre do que em outras bacias marinhas. A zona profunda é totalmente desabitada. Em compensação, as profundezas anóxicas preservam naufrágios de séculos: sem oxigênio, madeira e metal se degradam muito mais devagar.
O que espera o mar
Oceanógrafos consideram vários cenários. O mais provável é o afinamento contínuo da camada oxigenada, com impacto sobre a pesca e a economia costeira. Liberações catastróficas são possíveis, mas consideradas muito improváveis. Ainda assim, perturbações locais da estratificação durante terremotos não podem ser descartadas. Dá para aliviar a tendência reduzindo a poluição, melhorando o tratamento de esgoto e recuperando filtros naturais como zonas úmidas e limãs.
Mar de memória longa e desenho complexo, o Mar Negro reage a tudo ao seu redor — e hoje passa por uma fase especialmente sensível. Sua condição é central para a estabilidade ecológica da região. De quão bem se controlam as fontes de poluição e se sustentam os processos naturais depende o futuro dos ecossistemas costeiros. A questão não é se o mar vai responder, mas se decidimos perceber a tempo.