21:53 29-11-2025

Edição genética em 2024: avanços, ética e medicina moderna

Entenda como a edição do genoma evoluiu desde o caso He Jiankui: avanços clínicos em 2024, correção em embriões, riscos e ética que guiam o uso na medicina.

Há seis anos, o mundo científico atravessou um de seus escândalos mais estrondosos. O pesquisador chinês He Jiankui afirmou que nasceram crianças com DNA alterado — um momento que provocou choque, disputa e uma longa lista de perguntas. Hoje, a conversa sobre edição do genoma soa diferente: as ferramentas amadureceram e o debate se alargou, com um tom menos de espanto e mais de avaliação do que fazer com o que já é possível.

O que mudou em 2024 e por que tantos pesquisadores veem a edição genética como prática chamada a se tornar parte do cuidado médico — é o que está em jogo.

A edição de DNA já se tornou realidade

Segundo Vladimir Taktarov, doutor em ciências médicas, intervir no genoma humano já não é uma abstração. Existem protocolos que autorizam correções para doenças hereditárias graves do sangue e, observa ele, procedimentos desse tipo já foram realizados com sucesso. Deixou de ser um exercício teórico para virar uma prática clínica rigidamente delimitada.

O foco recai sobre condições que hoje não têm cura radical — entre elas fibrose cística, doenças congênitas graves do fígado e deficiências hereditárias de enzimas. O geneticista afirma que problemas assim surgem com frequência surpreendente, na ordem de um em cada seis ou sete pacientes.

Por que intervir no estágio embrionário é a opção ideal

Taktarov explica que o momento mais favorável é logo no início do desenvolvimento, quando o embrião ainda é um pequeno conjunto de blastômeros. Em programas de fertilização in vitro, parte dessa lógica já existe: médicos realizam diagnóstico pré-implantacional, examinando células para descartar mutações graves. A correção gênica segue o mesmo princípio — reparar o gene defeituoso e permitir que o embrião se desenvolva com um conjunto corrigido.

À primeira vista, os métodos podem soar radicais, mas, na biologia atual, eles permanecem dentro do alcance do que é viável. Em termos práticos, a lógica é direta.

Os principais entraves são éticos, não técnicos

A tecnologia avança depressa, mas a pergunta difícil é como usá-la. O geneticista ressalta que, na Rússia, como em muitos países, as preocupações centrais são morais. O temor dominante é a mercantilização — utilizar ferramentas genéticas não para salvar pacientes, mas para desenhar crianças sob encomenda, com traços ou aparência específicos.

Na visão de Taktarov, a regulação precisa se apoiar não só na lei, mas também na responsabilidade pessoal dentro da comunidade científica. A inquietação pública, afinal, recai menos sobre o que pode ser feito e mais sobre o motivo de se fazer. Esse receio não soa teórico.

O experimento de He Jiankui: perguntas ainda sem resposta

O debate ganhou força após o caso de 2018 na China, quando nasceram gêmeas com edições no gene CCR5, ligado à suscetibilidade ao HIV. A intervenção foi escolhida pelos pais por causa da doença do pai. No entanto, não apareceram artigos em revistas científicas de referência, o que deixou sem registro confiável como o procedimento foi realizado e como evolui a saúde das meninas. O pesquisador recebeu pena de prisão, cumpriu três anos e, ao sair, disse que as crianças estavam saudáveis.

Não há provas disso — e isso continua a inquietar a comunidade científica global.

Um caso que ecoa a ovelha Dolly

Taktarov observa que a ciência já viu esse roteiro. Quando nasceu a ovelha clonada Dolly, as informações eram escassas e as consequências foram debatidas por anos. Com as gêmeas chinesas, o paralelo é evidente. Pesquisadores gostariam de um acompanhamento médico formal, mas até agora tais dados não foram publicados. A comparação ajuda a medir o tempo científico, que costuma andar mais devagar do que as manchetes.

O futuro da engenharia genética: familiar ou arriscado?

Apesar da temperatura do debate, o geneticista está convencido de que a edição do genoma acabará se tornando rotina — como ocorreu com a fertilização in vitro. O risco central permanece: trabalhar no DNA é uma forma de cirurgia, e cirurgia nunca garante resultado perfeito. Sempre existe uma margem de erro. O paralelo com a FIV parece apropriado.

Ainda assim, o progresso não volta atrás, e a humanidade se aproxima de um tempo em que a correção genética deixará de ser uma sensação.